São Paulo: de Serra ao exaustor!
a liberdade individual paulistana foi junto com a fumaça
por Fábio Reoli
Fiquei imaginando um encontro com o bukowskiano Henry Chinaski, num reduto boêmio qualquer de São Paulo. Um cumprimento efusivo e uma ida sedenta até o balcão. Uma dose pra mim, outra pra ele e, com uns trocados a mais, pra todos no bar. Até mesmo para aquele garçom mais ranzinza. Eu saco um cigarro amassado do maço e ofereço outro pra ele. Quando o cara se prepara para soltar um uníssono “To all my friends“, com a caixa de fosfóro que estava sobre o balcão ainda na mão e copos pro alto, adentram no bar aquelas almas penadas, vestidas de branco, com a maletinha ostentanto o mapa paulistano, um cigarro acesso e uma faixa transversal, cortando-o ao meio. Uma delas, quem sabe, tem um extintor de incêndio nas mãos, a outra a tal “bíblia” ditada pelo nada santificado governador paulista abolindo o cigarro de todo e qualquer lugar fechado na cidade.
Eu nem ficaria tão surpreendido se estívessemos na porta de uma UTI mal cheirosa de um hospital público, no saguão cheirando a dólar de uma Igreja Universal do Reino de Deus ou num ônibus lotado na hora do rush… Mas num bar??? Desde a primeira quinzena de agosto está vigorando nas cercanias da paulicéia a fatídica lei nº 13.541 que proíbe “cilindros esfumaçantes assassinos” em qualquer ambiente fechado de uso coletivo. Aliás, esse final “41” que no jogo do bicho – jogar no bicho, pode – é cavalo, foi um verdadeiro “coice” nos fundilhos dos fumantes. Inclui-se aí este que vos escreve. Faz tempo que estão tentando dar um basta em nossa boemia.
Primeiro veio a lei do “Psiu“ que impede que você grite após as 22h, mesmo que esse grito seja um pedido de socorro caso um nóia qualquer esteja com um caco de garrafa no pescoço de uma moça mais desavisada. Daí foi um passo para muitos bares tradicionais fecharem suas portas mais cedo, deixando nós, os adoradores da lua, um pouco mais sedentos e no escuro. Alguns foram se ajustando, com uma acústica que não incomode o vizinho da direita e o da esquerda. É, aquele mesmo vizinho que dorme cedo e te acorda num sábado às 7 da madrugada com aquele sertanejo no talo. Tem até cidades do interior que colocaram toque de recolher pra menores – no caso menores de 17 e maiores de 14, sendo que aquele mesmo que engloba a faixa – digamos os de 16 anos – não tem mais direito de ouvir um rock´n´roll num bar qualquer depois de um dia estressante de trabalho mas que já é quase obrigado e incentivado a tirar seu título de eleitor e ir as urnas, engordar as estatísticas de que somos um povo civilizado. Besteira.
Fico imaginando os grandes poetas marginais que retiravam suas inspirações dos cascos de garrafa e que entre um gole e outro deixavam fluir entre as mãos as mais sábias palavras, regadas a whisky e uma boa tragada no cigarro. Agora o cara tem que escrever uma palavra, dar um gole no whisky, ir até a calçada, dar uma tragada, escrever outra palavra, dar outro gole no whisky, mais outra ida a calçada e por aí vai. Não há inspiração que aguente. Conseguiram tirar a essência sagrada do bar, a catedral de todos os bêbados. E geralmente, bêbados não tão nem aí pra fumaça alheia. Um bar sem fumaça é como aquele circo que chega na sua cidade sem aquele leão velho e pulguento. Aliás, proibiram animais no circo também. Mas tá cheio de palhaço governando a gente, empunhando a caneta dourada nos palácios da vida. Primeiro teve muito derramamento de sangue pra se chegar numa democracia que muitos ostentam e que não se cumpre. E como escrevi dia desses, começa assim, uma canetada proibindo isso, outra proibindo aquilo e logo tem milico na rua te dando porrada porque você está assobiando uma música do Chico ou lendo um livro do Onetti.
Tá provado que o cigarro faz mal, mata. Não ofereço, não recomendo, mas não quero ninguém decidindo por mim, como aqueles leões de chácara que foram colocados nas portas dos bares pra te vigiar, te olhando torto caso o bolso da sua camisa ostente um maço de cigarros, mas se você tiver um 38 escondido na cintura você passa batido. É brother. Um cano deve fazer menos fumaça, né? Tanto quanto essa porrada de ônibus e caminhões velhos que passam tranquilamente pelas avenidas jogando a mesma fumaça na cara de todo mundo. Mas no bar, amigão, deve ser bem mais letal. Outra coisa que venho observando são as paradas de ônibus. De um lado os fumantes, os que vão queimar no inferno com suas brasas, jogando fumaça ao vento. Do outro, os olhares tortos dos não fumantes, aqueles que trepam, trabalham e cagam igual aos outros, mas que de alguma forma acham que serão salvos por alguma força divina pelo simples fato de ter trocado um isqueiro por uma bala de menta.
Os dias da tal lei anti-fumo tem sido assim. Em cada esquina uma sombra indefinida. Uma brasa acesa se esgueirando. Falta pouco pra se criarem bunkers onde rastejaremos feito ratos, cujos olhos faíscantes compostos por brasas na boca, seja o caminho único pra se chegar a um lugar fora dos olhos dos homens das leis estapafurdias, onde apenas se possa tomar uns goles, fumar um cigarro e ouvir boa música, ao lado de nossos pares. Parece exagero, eu sei, mas a coisa anda se alastrando além das fronteiras de Sampa City e logo logo corre-se o risco de surgir alguns Al Capones do fumo, por aí. Engraçado que o movimento dos banheiros dos bares tem tanto movimento quanto as calçadas, hoje. E no entanto, as mesas, vazias. Hipocrisia pura.
A noite de São Paulo está virando dia cinza. Logo ela – a noite – aquela puta velha e safada que ás vezes paga de boa senhora mas tá louca pra te dar sem camisinha. E apesar de tudo, ainda vale a pena come-la. E fumar aquele cigarrinho depois, regado a um destilado qualquer. Desde que seja a céu aberto. Na sombra do poste, contra a luz. Ou trancafiado com uma bela dama naquele quarto de hotel decadente, no Centro, que apesar de fechado com aquela porta de madeira pichada e descascada e sujeito a uma blitz da vigilância sanitária… ainda pode.
*Fábio Reoli é escriba marginal, fotógrafo, fumante inveterado, bom bebedor e escreve no blog Maternidade do Texto.
13 respostas Até agora ↓
Solange Mazzeto // Setembro 11, 2009 às 3:21 pm |
Muito bom o texto? Não, tá é muito ótimo. Não sou fumante, mas a Lei que é até boa pra quem não fuma, como eu, tá atrapalhando comerciantes pra caramba. Caras que são donos de Bar estão num beco sem saída, porque o movimento caiu muito! O seu texto aborda muita coisa Fábio e me fez refletir pra burro, sabe, na minha modesta opinião, seria bom que limpassem o rio Tietê [como tavam fazendo], porque fumaça de cigarro faz mal sim, mas e o ‘perfume’ do rio nas marginais paulistanas? E o saneamento na periferia? Faz mal não?
Enfim, não deixa de ter o lado legal pra mim que não fumo, agora saio e volto de casa, sem o fedor da fumaça, mas vejo amigos meus cabisbaixos e fico sem jeito de vê-los assim…
Bom, bjão querido amigo.
So
Bell Gama // Setembro 11, 2009 às 4:48 pm |
Li o texto e adorei. Parabéns, tá ótimo! Me identifiquei totalmente! 100% apoiado, é Fábio Reoli pra botar bagunça nessa ordem! beijo!
Wood // Setembro 12, 2009 às 10:32 pm |
O cara mandou bem Eu como paulistano e das antigas, tenho a mesma sensação da volta da “ditadura”.
Sandro // Setembro 13, 2009 às 12:51 am |
Muito bom, do caralho !!!
Abração
vladir duarte // Setembro 13, 2009 às 2:01 am |
Cara, tenho rinite alérgica. Fumaça de cigarro pra mim é um veneno, me incomoda muito, muito mesmo. Agora imagina eu ir a um lugar com amigos, família ou namorada e, de repente, ter que mudar de cadeira, às vezes até de mesa, só porque alguém resolveu fumar logo do meu lado? É foda!
Sei que para os fumantes, essa lei é extremamente dura, mas seria importante também analisar o assunto por outro lado.
Não acho que a proibição deveria se estender a todos os lugares fechados. É aceitável que se libere o fumo em bares e casas noturnas… apenas por uma questão de bom senso.
marcos pardim // Setembro 14, 2009 às 12:45 pm |
pra começo de conversa, não fumo. e daí? é da minha conta, única e tão somente da minha conta. e o serra que vá catar coquinho, vai ver se estou na esquina, plantar batatas, etc etc etc. sou anti anti qualquer coisa que o estado queira impingir em minha vida pessoal por intermédio de lei. ademais, é hipocrisia e fazer o “jogo fácil” apontar a sanha proibitiva par nós, cidadãos… por que não vão atrás da indústria do cigarro? facinho, facinho saber: imposto, meu caro. eita nóis… ainda bem que, apesar “deles”, sobrevivemos e conseguimos fazer de nosso dia a dia um jeito “saudável” de se tocar o tango da vida.
Anna Lucia Lopes // Setembro 14, 2009 às 2:03 pm |
Eu era a favor da lei, partindo do principio que a escolha de me fazer mal é minha e não tenho que obrigar o cara que não fuma, fumar junto comigo. Mas realmente a noite de Sampa, ficou uma M bem grande, e isso esta parecendo ditadura mesmo. Governantes do caralho se preocupem em enrrolar o cabelo do cu, sera muito mais proveitoso para todos nós se vc se dedicar diariamente a fazer somente isso, nós agradecemos.
Anna Lucia Lopes // Setembro 14, 2009 às 2:04 pm |
Eu era a favor da lei, partindo do principio que a escolha de me fazer mal é minha e não tenho que obrigar o cara que não fuma, fumar junto comigo. Mas realmente a noite de Sampa, ficou uma M bem grande, e isso esta parecendo ditadura mesmo. Governantes do caralho se preocupem em enrrolar o cabelo do cu, sera muito mais proveitoso para todos nós se vcs se dedicarem diariamente a fazer somente isso, nós agradecemos
Altamir // Setembro 14, 2009 às 4:10 pm |
Grande Fábio,
Primeiramente, quero deixar bem claro que a minha aprovação pessoal à lei antifumo não deve ser estendida automaticamente aos Srs. Serra e Kassab, com os quais também não compactuo em nenhum outro assunto. Jamais votei ou votaria em ambos.
Seu texto, como sempre, é muito convincente e, como já comentei em seu blog, na lei antifumo deveria haver uma brecha para os verdadeiros poetas e artistas. Para mim, só essa estirpe de pensadores mereceria essa deferência. Também concordo que a fumaça dos cigarros faz parte do clima da autêntica boemia. Contudo, o que vemos pelos bares e casas noturnas em geral, na maioria dos casos, é um fumacê sem lógica, feito por pessoas completamente comuns, que não respeitam os vizinhos do lado, mas que também não trazem nenhuma contribuição artística, filosófica, humorística ou musical para o nosso mundo atual. Aí é foda. A gente querendo tomar um chopinho com os camaradas gente fina, e tendo que aguentar aquele fumaceiro desenfreado, que não traz nenhum efeito colateral do bem.
Registre-se que os seus ataques a essa lei são os únicos embasados em critérios realmente “científicos”, defendidos por alguém que luta pela manutenção de um estilo de vida ao qual também dou muito valor, porque é muito verdadeiro e vem da alma.
Já fui muito da noite, só que embabaquei após casar e virar homem de família. Mesmo assim, como falei, às vezes saio com alguns poucos amigos para desopilar o fígado, e, nessas saídas, a ausência da fumaça tem sido muito bacana, vista pelo nosso prisma. De qualquer forma, para ficar na companhia de amigos fumantes que valham à pena, há sempre a possibilidade de ficar numa velha e boa calçada da Vila Madalena.
Grande abraço, Fabião!
Fabiano Silmes // Setembro 14, 2009 às 9:00 pm |
Fábio lendo o seu texto me lembrei de uma passagem do poema do Eduardo Alves da Costa.
Abraços.Carpe Diem!
“Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada”.
Germano Xavier // Setembro 15, 2009 às 3:53 am |
Reoli,
de olho aqui também, meu caro.
Expansão das idéias é o nome.
Meu abraço.
Força sempre.
Godet // Setembro 16, 2009 às 6:01 pm |
É cara, o texto é bom mesmo. Eu fiquei indignada com essa baixaria, com essa cara de pau em dizer que é pro nosso bem. Moro em Sampa e tô puta com essas e outras que esses “senhores” inventam… “E já não podemos dizer nada”.
Lu Rosário // Outubro 12, 2009 às 4:00 pm |
Como Quintana disse “O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar”…