entrevista

Mister Reny

Um maldito talvez. Um Bukowski que caminha em Porto Alegre e vive para conseguir o cigarro e a bebida da madrugada. Um compositor de clássicos históricos do rock no Rio Grande do Sul. Um romântico solitário com seu violão. Um ex-patrulheiro mirim. Um ex-jogador de futebol. Goleiro, é claro. Justamente a posição mais romântica e solitária do esporte – E até hoje ele sente suas mãos enroladas nas redes da goleira. Mãos que não impediram o seu último gol sofrido. O seu último jogo. E quando ele conta tudo isso a gente também sente as mãos tocando a rede lá no Estádio dos Eucaliptos (antigo estádio do Inter). Um  guri que roubava discos e participava de brigas de ruas. Que se decidiu artista quando internado em um hospital. Que escolheu a música como meio de vida e batalha para viver dela há trinta anos. Uma espécie de mito, de herói do lado mais frio da cidade, de lobo solitário que ainda uiva por aí.
Por trás de um óculos escuro, Julio Reny conversou por uma hora e meia, entre garrafas de cerveja e cigarros mentolados, com o Língua Pop.

<<voltar à página de conteúdo

Bruno bandido– Eu já vi te apresentarem como Lou Reed de Porto Alegre ou Johny Cash dos pampas. Tu valida essas apresentações?

Júlio Reny – O lado romântico e o lado tropical que eu tenho na minha música não chega a me tornar uma coisa tão parecida com esses dois mestres. Esses dois ícones. Dois gigantes. Acho que o meu próximo disco vai me tornar uma coisa mais próxima deles. Vai me aproximar do Lou Reed pela temática e do Cash pelo pé no folk mesmo.

Bruno – Interessante que são dois artistas bem diferentes até.

Júlio – É, exatamente!

Bruno – Tu acha que é por que tu muda muito dum trabalho pro outro?

reny2

Isto não é publicidade. Infelizmente, nenhuma marca de cerveja patrocina o Língua Pop.

Julio – É, o último trabalho que venho desenvolvendo com os Irish Boys até eu tô mais Johny Cash. Mais violãozão na mão, sabe? Um negócio de country, folk, mais definido. Mais afastado da música latina que sempre foi uma coisa muito forte no meu trabalho pós-new wave. E o Lou Reed, como eu falei, vai ser mais as temáticas.

Bruno – Esse teu último disco, “A primavera do gato amarelo”, ele é mais pra cima do que os outros

Júlio – É. Até pela questão do título, “A primavera…”. Eu vim guardando umas canções num período médio de quatro anos. Umas canções mais felizes, tem música de aniversário, de praia. de bebedeira com amigo no interior, só duas de amor mais tristes. Esse próximo disco que eu to fazendo vai ser bem diferente.

ricardo ara chega atrasado com duas gêmeas. Todos se cumprimentam. Senta-se ao lado de Julio:

Ricardo ara – Júlio, tu já está compondo as músicas pro teu próximo disco?

Júlio – Não, mister. Eu recém to compondo algum material, arranjando tempo. Namorando algumas idéias, umas influências, mais ou menos a cara do que eu quero pra ele. Já tenho alguma coisa na cabeça, mas até produzir vai muito tempo pela frente.

Ricardo – Tuas composições são tri autobiográficas. Tu tá esperando viver um pouco mais pra quem sabe compor?

Júlio – Muito pelo contrário, mister. Esse disco é feito após a perda da minha família, que foi um troço que me marcou muito. Meio que depois eu caí na vida um tempo. Então, bah tchê,, tenho muita história pra contar, muita letra. Letra que cinqüenta por cento eu nem vou aproveitar, letra que foi feita no calor da noite.

Ricardo – Tu pensas em aproveitar isso num livro, ou sei lá?

Júlio – Não. Não.

Ricardo – Porque te consideram um poeta.

Júlio – Nem tanto. Eu me considero um letrista esforçado. Um letrista que trabalha duro.

Bruno – Tu tens um método fixo de composição?

Júlio – Tenho. O método nasce a partir da letra.

Bruno – Letra depois melodia?

Júlio – É, depois eu musico ela. Ou pego duas letras que tenham um mesmo assunto, mas eu não gosto muito de fazer isso, de fazer um Frankstein. Mas agora como as últimas letras tão se repetindo muito, ou se repetiram por que agora eu parei de escrever, já vivi o suficiente essa fase, vou ter que fazer umas costuras. Tem muita coisa de bar, que chega um amigo e diz “ah bota isso aí”, então são coisas até desconexas do próprio manuscrito que tu já levou pra casa numa noitada. É diferente. Então por isso que o disco talvez vá demorar, porque tem que fazer tudo isso aí, boas melodias… Não tem previsão nenhuma. Tanto posso dar uma de louco e me encerrar um mês em casa, descolar uma grana e entrar em estúdio, ou demorar um ano ou dois pra lançar.

Gêmea 1 – Ricardo, me compra uma cocacola?
Ricardo dá o dinheiro.

Ricardo – Então, eu li numa entrevista que tu disseste que “pra música aparecer a vida tem que acontecer”? Tu não acha que tá faltando muito isso?

Júlio – Eu meio que me fechei num ciclo, num padrão de som e de época, que, bah, eu não consigo sair daquilo. Me bitolei naquilo e sou bitolado assumido mesmo. Então não ouço muitos trabalhos de hoje e tal, inclusive de música gaúcha e não é prepotência minha. O único disco recente que eu ouvi e me identifiquei foi o do Nasi, “Onde os anjos não ousam pisar”, e gostei muito. Inclusive fui no show dele, fui no camarim depois, dei um abraço. O cara merece.
Então eu não sei o que as bandas andam falando nas letras, tirando o que tu ouve na TV e nas propagandas de rádio, esse pessoal do Emocore, não sei o que as bandas indies tão dizendo no Brasil.

Bruno – E… A cidade, como ela influência no trabalho?

Júlio – Bah, a cidade é onipresente né? Eu até já tentei me transportar prum deserto imaginário, country, mais na época dos Cowboys Espirituais, viver um mundo imaginário, né? Mas é difícil, olha essa barulheira em volta.

cachorros latindo, pessoas conversam, gritam,

carros passando, sirenes de ambulância,

Madonna tocando na rádio,

criança pedindo um salgadinho aos berros,

gêmeas gostosas conversando,

passos, corridas,

motos, janelas batendo…

Nessa selva de concreto e aço não tem como. Mas ás vezes me reporto a desertos… Não deserto árabe, aquele que eu também já vivi uma época (época do expresso oriente). Mas agora é o deserto dos cowboys. Nesse último disco, tenho uma música que fala bem claramente nisso.

Bruno – Quando vocês começaram os Cowboys Espirituais, vocês imaginaram que iriam chegar ao sucesso que chegaram, ganhar prêmios e tudo o mais?

Júlio – Não.

Ricardo – Foi um brincadeira, não?

Júlio – Não exatamente uma brincadeira. Foi um acidente. Acidente é a palavra certa. E depois nem teve como domar “o cavalo doido”.

Bruno – Foi a vez que tu mais atingiste o Brasil?

Júlio – Foi. Foi, porque a música “Jovem Cowboy” foi um hit. Baita hit em São Paulo. No Rio tocou bem também. Uns cariocas vieram me dizer que conheceram meu trabalho a partir daí.

Ricardo – Eu acho interessante essa tua relação com o underground. Tu é um cara tri conhecido mas ao mesmo tempo não é tão reconhecido…

JúlioSou um maldito. Um cara que trilha um caminho muito pessoal.

Ricardo – Mas tu te satisfaz com o underground?

Júlio – Ah, no mainstream tu paga as contas, no underground não. No mainstream tu vive, no underground tu sobrevive.

Bruno – E essa alcunha de maldito, Reny? Donde tu acha que vem?

Júlio – Em termos de imprensa, aqui no Rio Grande do Sul eu sou um cara até bastante conhecido. As pessoas que ouvem rádio dizem que têm me ouvido bastante, aqui em Porto Alegre, nas rádios do interior também. Jornais… Pô me deram boas matérias, matérias de uma página inteira. O que me torna um cara maldito é não ser considerado tão comercial. Dificulta pedir um cachê maior em casa de interior… É raro me convidarem pra grandes festivais. O último em anos que me chamaram foi aquele de 25 anos da Ipanema, no ano passado. O prêmio Açorianos esse ano nem lembrou de mim, to com disco novo e tal.

Ricardo – Acho que é por ser o que tu diz que a música parece transparecer muito como que é tua vida.

Júlio – Ééé, talvez, não sei.

Ricardo – Tu te importas mais com a satisfação pessoal?

Júlio – Ah sim! Eu tenho um método de trabalho que é baseado no seguinte. Eu sou um compositor de pop-rock-country-folk e como moro num país tropical tenho um pé muito na latinidade. Não posso negar. Gosto muito da bossa nova, da primeira fase de João, Tom e Vinicius… Então isso tá presente. Aí toda música pra mim tem parte A, parte B e refrão. A não ser que um tema tranque em duas notas, aí é diferente, é funk, é concepção, é groove, uma coisa mais inspirada na batida do hip hop né? Então dentro da carpintaria musical eu tenho que ser popular. Eu sempre atiro pra matar em qualquer canção.

Bruno – É. Porque, porra! O teu disco lá dos anos 80, com a Expresso Oriente, tem muito hit. “Não Chores, Lola”, “Amor e Morte”, “Sandina”… Por que tu acha que não atingiu uma proporção maior, como muitos gaúchos da época. Engenheiros do Hawaii, sei lá!?

Júlio – É porque eu fiquei pra trás na corrida das gravadoras.

Bruno – Ah, as gravadoras…

Júlio – É, isso aí fez toda a diferença. A partir dali minha sorte foi decidida. Fiquei no underground.

Ricardo – Tu chegasse a montar um selo, o “Piratas Sulistas”, tu gravasse só coisa pessoal?

Júlio – É. Gravei meu primeiro álbum. Em cassete, não consegui grana pra disco. Aí depois ele foi relançado em CD. Agora lancei o último por ele, mas é um selo fantasia, eu cheguei uma época ir atrás de alvará, tenho até hoje em casa, congelado.

Ricardo – Tu pensas em retomar o selo pra produzir alguém?

Júlio – Não. Ele tem que tá vendendo muito. Tem que ter um cast e tal. Mas não quero saber disso, to muito velho pra isso. Tá bom assim, eu e eu, a gravadora soy yo e o artista soy yo.

Bruno – Quando é que tu despertou pro Rock?

Júlio – Isso tem tudo a ver com o Roberto Carlos, principalmente. A minha irmã mais velha ia para o cinema namorar, coisa de sessão da tarde. Ai os pais me mandavam ir com ela lá, bem sessão da tarde mesmo. Eu não cuidava dela, dos namoros dela, na época uma coisa bem pueril, assim, inocente, uns agarramentos com os caras, como qualquer garota faria. E eu lá, na primeira fila, via os filmes do Roberto, dos Beatles, do Elvis, e foi ai que a música me pegou, aos seis, sete anos, por ai.

Bruno – E dai até tu ter uma banda?

Júlio – Bah, foi uma longa jornada até eu ter uma banda. Banda, sério mesmo, só tive quando eu estreei, ai por 79, que foi meu falecido irmão na batera e dois colegas de ginásio, que são os músicos que estão no meu primeiro álbum: “Último Verão”. Tanto que esse ano eu vou comemorar 30 anos de carreira a partir da comemoração desse show. Já até marquei a data no Ocidente, parece que é lá por novembro, não me lembro direito.

Ricardo – E tu pretende tocar aquelas mesmas canções?

Júlio – Não, não, daquele tempo eu vou tocar Cine Marabá e só. São canções que têm muitas longices de um garoto começando a compor, começando a viver. Tem um material bom. Mas tem coisas que eu nem sei tirar de novo, sério mesmo. Talvez eu resgate mais uma daquele disco, daquele Último Verão.

Bruno – Quando tu começou a tocar não tinha muitas bandas de rock aqui, né?

Júlio – Pouquíssimas. Lembro que tinha o Nei Lisboa, tinha o Raiz de Pedra, bah, tinham poucas bandas que se lançavam, que faziam shows. Era um deserto a cidade. Teve um boom entre 75 e 76 da música gaúcha, quando estourou Almôndegas, Hermes Aquino. Depois veio um vácuo, um vazio total, praticamente um deserto, e eu surgi bem nesse momento.

Ricardo – Li numa entrevista que tu falava com o Wander (Wildner), vocês iam pra São Paulo e tu se ligou que ia surgir alguma coisa aqui e acabou ficando…

Júlio – Buenas, a história é seguinte: justamente por ser um deserto e eu ter uma garagem e os equipamentos que eu tinha juntado, e eu fazia um show por ano, em 79, 80 e 81. Em 82 não fiz porque eu tava gravando e me concentrei só naquilo, nem saí pra rua. Ai em 84, um tio que morava no Rio me disse que Cine Marabá tocava bem na Fluminense FM, tocando com a demo de Vital e Sua Moto (Paralamas do Sucesso) e a demo do Kid Abelha. Relatos de cariocas que me disseram isso. Ai o que aconteceu, eu pensei: vou passar nos cobres essa garagem, paga umas contas e vou embora daqui. Meu primeiro casamento tinha acabado também, minha esposa tinha ido embora pra Bahia com minha filha, ai eu pensei: aah não tem mais nada aqui pra mim, eu vou embora. Ai quando eu vi, pintou o Wander na minha casa um dia, todo de punk. e ai, aah foda-se… Fiquei.

Ricardo – Essa garagem foi o “rock gaúcho”?

Júlio – Foi. Foi. Muito freqüentada essa garagem. Das bandas da época, as únicas que não freqüentavam eram os Garotos da Rua e a Tara Nativista, porque eu não tinha muito entrosamento com o pessoal. Do resto, todas freqüentavam.

Ricardo – E foi até quando essa garagem mesmo?

Júlio – Ela foi até 90, quando eu tive que entregar a casa. Mas também, no momento em que as bandas conseguiram gravadoras, todo mundo foi se debandando e ai só ficou a Expresso Oriente.

A entrevista está nos vinte minutos. As Gêmeas 1 e 2 estão impacientes. Continuamos a conversa.

Ricardo – A gente sabe como é a vida do músico indie e do músico pop. Tu que te considera um músico maldito, como que tu consegues viver de música?

reny1

Júlio – Ah, ultimamente, se virando nos trinta. Tu tem renda, tem direitos autorais… Tá apertado, consegue uma grana emprestada, paga quando puder… Tu vai indo do jeito que vai. Ás vezes tu olha lá pra cdteca, sacrifica uns cinco títulos, ou uma coleção inteira, como eu fiz há uma semana atrás. Vendi prum amigo colecionador pra matar uma conta.

Ricardo – É… Esse lance beat, talvez… Esse lado mais verdadeiro do Rock.

Júlio – É. O troço é meio Bukowski, tu tá sempre pensando em como ter a bebida da noite. Hoje eu tenho minha bebida e meu cigarro pra trabalhar de noite. Um modo meio beat de viver mesmo. Concordo contigo. Toda razão isso que tu falou.

Ricardo – É, tu consegues produzir coisas boas. É a história do ter que viver pra acontecer.

Júlio – É, é mais ou menos isso. Ás vezes tu vai pra rua viver as coisas, ás vezes te entoca em casa por meses. Teve semanas dessa minha nova vida de solteiro que eu nem me recordo. Eu fui tropicando nas noites. Emendando uma noite na outra. Voltava pra casa seis da manhã, dormia um pouco e depois acidentalmente a noite me levava de novo pra noite. Eu vivia mil coisas e nessas semanas eu saí de segunda a domingo enlouquecido, ás vezes sem dinheiro, indo…

Bruno – Sim, e a noite não é pra todos…

Júlio – Exatamente. Agora por exemplo eu to numa fase que tenho feito uns especiais de country rock, e to lançando um especial de Roberto Carlos. Vinte e um temas. Vamos aguardar pra ver como é a recepção. Se for boa dá pra começar a vender.

Bruno – 50 anos de carreira do Roberto né!

Júlio – É, e se for continuar, isso tudo demanda tempo, ensaio, estúdio, dedicação… Então nesse período eu parei de sair na noite. Praticamente não saio mais. Fico em casa estudando ou ensaiando com a banda. Aí quando acabar sim, posso voltar a me dedicar às músicas novas, pra noite.

Ricardo – E tu conseguirias viver se não fosse desse jeito… Se tu tivesse estourado nos anos 80, por exemplo?

Júlio – Não sei dizer. Tem que saber ser profissional. Como tem tanta gente aí. Viaja pra caramba, tem uma vida intensa e ainda consegue produzir… Não dá pra se atirar nas cordas e coisa que um bom profissional não faz é isso.

Ricardo – Apesar das tentações!!!

Júlio – É, apesar das tentações, exatamente isso.

A gêmea 2 diz estar passando mal. Tapa a boca com a mão direita. Mas não se contém. Lamentavelmente, vomita no chão.
Gêmea 1 – ricardo, a gente vai indo, acho que ela não tá legal. Te esperamos lá em casa.

Ricardo – Cara, e como foi a história da internação que tu teve?

Júlio – Internação… Bah, me consegue um copo de cerveja… É pra molhar as palavras…

bruno pega a cerveja

Júlio – Olha só, é uma longa história.

Bruno – a gente tem todo o tempo do mundo. (referência com a letra “uma tarde de outono”)

Júlio toma um gole e começa a contar:

A história do Hospital é a seguinte: A minha primeira atividade pós-colégio foi por influência dum padrinho que era tenente da Brigada. Me botaram num grupo chamado Pedro Paulo Mirim, que era uma espécie de atividade lúdica da Brigada, onde participavam filhos, parentes dos militares. Era três vezes por semana, mas tu tinha que acordar às seis da manhã, te fardar todo, tinha que obedecer, ter disciplina, ter com o coturno brilhando, eles tinham que ver o rosto na fivela do cinto. Tudo isso, tudo com roupa em miniatura. E eu tava nessa, até empenhado. Eu me lembro de entregar aqueles adesivos do “Brasil, ame-o ou deixe-o” quando a seleção ganhou o Tri. Depois de uns dois anos eu fui promovido à líder da minha turma. O que o líder tinha que dar? Ele tinha que dar tudo mesmo, porque liberava os superiores a resolverem os assuntos adultos e não os das crianças. Então tinha que dar moral cívica, leis, aplicação das leis e o resto ficava liberado pra educação física.
Só que com o tempo eu comprei uma bola pra jogar futebol e aí comecei a reduzir a moral cívica e as leis pra ficar jogando. Primeiro, meia hora de futebol, depois uma hora de futebol… E aquilo virou meu vício. Daqui um pouco a gente já tava chamando os adultos, o pessoal do BPM pra desafiar pruma partida. E era pegado o negócio. Pô, era o nosso quartel contra o deles e eles eram adultos. E eu de goleiro, sempre, e comecei a chamar atenção no gol.

Aí um dia, sem mais nem menos, resolvi dar minha baixa. Sair de lá. Os caras até ficaram chateados, disseram que eu ia dar um bom oficial… Mas saí. Expliquei pro pessoal que queria outros rumos pra minha vida que eu não sabia o que era. E tá, eles lamentaram muito, mas me liberaram.
E o pessoal jogava muito futebol de várzea lá na redenção. Comecei a jogar e um dia meu pai me viu. Eu era um excelente goleiro e ele me mandou pra escolinha do Grêmio. Como eu sou colorado, é óbvio que eu não me adaptei. Aí fui pro Inter. Bah, no Inter eu me dei bem. Fiquei dois anos como goleiro titular da escolinha. Pegador de pênalti, Gre-Nal ainda por cima. Bah, eu era um gato no gol. Mazurkiewicz, me comparavam ao goleiro do Uruguai. Lendário Mazurki. Aí o que aconteceu, fui promovido aos infanto-juvenis. Só que fui só eu, da minha turma não foi mais ninguém. Aí perdi minha zaga. Goleiro é zaga né, tu tem que ter entrosamento com a zaga, que nem uma banda.
Então peguei minha primeira partida. Fui pro Eucaliptos, bah, goleira gigante, campo gigante, bola gigante, tudo gigante. Só que eu não cresci de tamanho dum ano pro outro. E, com aquele estádio enorme, minha miopia foi aumentando. E peguei um treinador durão. Famoso pela dureza, mas de bom caráter. O Amílio dos Reis, lendário Amílio dos Reis, treinador das categorias de base do Inter por muitos anos. Aí peguei uma bola impossível no ângulo que um cara chutou. Depois fui disputar uma bola e o cara me cortou a cara com a chuteira e já disse, “aqui não tem essa aí goleiro”. E apareceu o treinador, “tu não tá na escolinha, te liga magrão”. Depois ficou uma meia hora sem vir bola no meu gol. E, bah, já era um artista sem saber, viajandão, fui indo, e fiquei na marca do pênalti. Viajando no Eucalipto, pensando “bah, Tesourinha jogou aqui”, daqui a pouco alguém gritou: “Goleiro, olha a cobertura!” Eu só ví aquela bola por cima assim, alto. Peguei ela lá dentro das redes. Até hoje eu sinto aquelas redes se enrolando nos meus dedos. E quando eu saí de lá dentro com a bola, o professor Amílio gritou “Fora caçador de borboleta!” Tá, aquele dia eu chorei a noite inteira, não falei nada pros meus pais, abandonei o futebol.

Outro gole…

Ricardo – E aí?

Júlio – Aí abandonei o futebol e fiquei perdido. Conheci um amigo, ele me ensinou a roubar discos, me botou no rock. E isso começou a pirar minha cabeça. Receber um monte informação. Fazer coisa que eu sempre tinha aprendido o contrário. Aquela coisa de família, “não roubarás”, minha família era tri honesta, trabalhadora. Mas era muito caro ter uma coleção de vinil. E aí eu também comecei a brigar muito, brigar muito, brigar muito… E um dia eu surtei e me colocaram no hospital. Acho que foi uma experiência decisiva, a experiência tá toda contada na música, não preciso entrar em detalhes …

Uma tarde de Outono de 73

Eu não me lembro bem mas foi numa tarde de outono de 73

Eu estava sentado num pátio e me agarrava ao sol com todos as minhas forças

Enquanto alguém com olhos sem vida me dizia

No hospital você tem todo tempo do mundo

E os latrilhos que brilhavam o sol, lá fora eu lhe asseguro não eram tão brilhantes lá dentro

E as pessoas que minha mãe achou tão gentis

Eu lhe asseguro não eram tão gentis lá dentro

E quando alguém com olhos sem vida me dizia

No hospital você tem todo tempo do mundo

Eles só disseram pra mim que eu não podia tocar nas mulheres

Mas eu me esqueci e beijei uma garota pela 1ª vez

Mas eu me esqueci e descobri pela 1ª vez que o mundo não tolera os desobedientes

Enquanto eu secava as feridas do meu lábio

Alguém com os olhos sem vida me dizia

No hospital você tem todo o tempo do mundo

Eu tentava descobrir o que eu havia feito de errado

para eles me colocarem la dentro

Mas parece que não era eu que determinava o que estava certo no mundo

Eu não me lembro bem mas foi depois de uma tarde de outubro de 73

Era quase noite e eu dançava com uma garota no salão

Os enfermeiros riam e nos observavam

De braços cruzados

O rádio tocava uma canção

O rádio tocava uma canção

Devia ser o que eles chamava de festinha das 5

O rádio tocava uma canção

E a garota chorava, e a garota chorava

No hospital você tem todo tempo do mundo

Aí, quando eu saí da internação, eles vieram falar comigo. “Olha a gente vê que tu tá perdido, saiu da escola… Vai virar um marginalzinho de rua?” E eu falei, “não, não, me perdoa, lamento muito”. Quando ele perguntou o que eu queria, eu disse, “olha, tenho ouvido muito rock, queria tocar, fazer uma banda, pretendo tocar guitarra”. Então meus pais juntaram as forças e me compraram uma guitarra. Uma guitarra de fabricação daqui até. Uma Mil Sons… E a partir daí, nunca mais fui pra rua, nunca mais roubei…

Outro gole…

Ricardo – E essa história das brigas. Não teve uma época que tu tavas na Cidade Baixa (bairro de porto alegre), e antes de começar uma briga entre gangues tu resolveu montar uma banda e cancelou a luta…

Júlio – Exatamente, exatamente. Nessa época eu tinha começado a estudar um pouco, mas ainda não tinha banda. E ai juntou uma confusão – meia dúzia pra cá, meia dúzia pra lá – e ai chegou esses dois ex-colegas. “bah, o que é que ta pegando aqui? Vamo engrossar isso aqui!” disseram eles e ai juntou duas fileiras e tal… Só que eu sabia que um deles tocava, era tri virtuoso, Ricardo o nome dele – que são os que tão no Ultimo Verão. E ai, bah, tinha um irmão que tava tri afim de tocar bateria, tinha ido trabalhar, em Minas, no Rio e agora tinha voltado, meio perdido na vida também, mas queria alguma coisa pra vida dele. Um dia ele chegou falando “e se nos tocasse e tal, já que tu ta aprendendo”. Mas nós precisávamos de uns caras que soubessem, que tivessem mais firmeza, ai olhei pra aqueles dois e falei “vamos formar uma banda!”
E ai cheguei pros lideres dos outros caras – ainda na confusão na Cidade Baixa – e  larguei “Vamos fazer uma reuniãozinha. Olha só, acho que hoje não vai rolar, hoje vamos arregar. To com umas outras idéias, de formar uma banda e tal…” E ai, naquele dia mesmo, fizemos nossa primeira reunião e fomos estrear três anos depois naquele show de 79. E foi, três anos pra definir quem seria o cantor e tal, compositor, e uma hora – coisa de irmão mais velho – meu irmão chegou e falou “te mexe tche”. E ai, naquela semana eu compus o repertório, dez músicas.

Ricardo – E tu já escrevia antes?

Júlio – Não.

Bruno – tu escrevesse pra banda mesmo?

Júlio – É, escrevi pra banda. Boa parte desse repertório eu gravei no Ultimo Verão pra salvar essas músicas, por que eu sabia que ia acabar se perdendo, que esse período ia morrer.

Bruno – Quantas vezes tu já morreu?

Julio – Bah… muitas, muitas, dezenas de vezes.

Bruno – É preciso morrer várias vezes?

Júlio – Ééé, é necessário,. É incrivél, mesmo contra a tua própria vontade… Tipo aquele filme, “O dia da Marmota” (Groundhog Day – estrelado por Bill Murray)…Realmente, concordo… Eu fiz uma letra agora, não sei se vou incluir no meu disco, é uma letra desesperada de mais, tenho medo que esse disco seja negro de mais. Até to pensando em chamar ele “Bola 8, bala de prata”, bah tem umas músicas…

bruno – Então tu vai morrer de novo, em relação a esse teu último disco?

Júlio – Realmente, vão ver que é outro cara. Um disco negro, escuro, bah… Denso, pesado. É uma vida meio Bukowski que o cara vai relatar.

Ricardo – E não é estranho tu ta fazendo esse disco e ao mesmo tempo tocando esse atual, tão pra cima?

Júlio – É estranho, por isso que eu digo que não é um disco que vai nascer do nada, ou vai nascer de uma loucura, onde daqui a pouco tu ganhas uma bolada e te soca em casa no final do mês ou tu vai gerando ele lentamente, demora uns dois anos pra fazer e tal…Mas o que eu sempre admirei nos artistas, nos caras compositores, estilosos, tu vê que cada disco é uma história, que o cara foi numa trip e se atirou nela até o fim daquele disco.
O desafio pra mim como produtor, que é uma coisa que eu amo, produzir meus discos, sempre com alguém do lado mesmo que não assine ou divida a produção – como no caso do último disco – é que eu vou estar sempre dando palpite, afinal eu sou o artista, sou um pensador, estudo sonoridades. Também, por exemplo, agora, eu não posso fazer um disco sombrio demais, né? Esse (A primavera do) “Gato amarelo” tá vendendo bem. Dos últimos discos que eu lancei esse é o que tá vendendo mais legal. Receptividade de rádio também, do centro do país não sei, larguei umas cópias por lá, mas só indo e vivendo lá pra saber como que tá realmente.

Ricardo – Tu não pensas em ir pra lá mais?

Júlio – Não, não, acho que já estou velho de mais pra isso. Vou ficar por aqui mesmo. Mas, se a vida me levar, por que não um dia? Agora, “a la loca” acho que não, deveria ter feito isso quando era novo se fosse pra ser.

Bruno – É, mas existe uns artistas em São Paulo que admiram muito o teu trabalho.. Ás vezes se  vê nos blogs dos caras eles te citando, que andam ouvindo…

Júlio – É isso é verdade, graças a deus. Hoje eu sou um cara meio lendário, meio maldito pro pessoal, não pro público né, mas pro pessoal ligado a crítica, música, literatura, enfim, as artes. Pra esse pessoal que pesquisa esses caras estranhos, tipo eu, que não são da grande mídia. Graças a deus o pessoal respeita o meu trabalho, dá um jeito de tê-lo, ainda bem né. Por isso também que eu não posso chegar com um disco tão anticomercial agora.

Ricardo – O artista tem que pensar no público. Não adianta ele só dialogar consigo?

Júlio – Exatamente, por exemplo esse disco do “gato”, as vezes tu ta na noite e vem uma galera querer o disco, ai tu já negocia e vende na hora. E é isso ai, ir no boca-a-boca o négocio, foi assim nesse trabalho, tanto que todo mundo acha um disco bem agradável de ouvir, do início ao fim.
E esse outro, mesmo relatando o meu drama, uma vida meio lourrediana, agora sim o Lou Reed, eu tenho que transformar ele no meu Transformer (disco de 1972 do Lou Reed).

Bruno – Sim, porque ele tem melodias bem pops…

Júlio – Exatamente. Mesmo não deixando de falar do “Vicious”, do “Perfect Day”, de travestis, traficantes, viciados, aquela fauna da baixa Nova Yorke, mesmo assim foi o maior êxito comercial dele. E é isso que eu tenho que fazer nesse próximo disco, transformar ele no meu Transformer, ir além do “gato”. É um desafio né, pegar uma temática pesada e transformar isso num hit, num outro disco que encontrem na noite e peçam também.

Bruno – Quando tu começa uma música, tu tens como missão terminar ela ou tu vê como recortes?

Júlio – Teve uma época, por exemplo, no “gato” teve umas três ou quatro músicas que eu gravei pedaços – em gravadorzinho de repórter mesmo – e deixei num canto, esperando. E ai chegou uma época que eu tinha a missão de terminá-las. E foi bem quando eu acabava o repertório do disco que eu ataquei esses músicas e terminei. Já nesse disco, não. Nesse eu to pegando música por música. Músicas que tu sonha, por exemplo. Teve duas músicas que foram sonhadas e se tu não pega elas quando tu acorda, quando for tomar café elas já se esqueceram. Mas nesse eu to indo música por música, até agora to preso numa, mas confesso, não ando muito inspirado.

Ricardo – Foi difícil se assumir como artista?

Júlio – Bah foi todo aquele processo que eu contei antes, do goleiro, de virar um ladrãozinho de discos, de ser um brigador varzeano de rua, do hospital. Quando sai do hospital que ai eu me assumi como artista. Agora, pra família, bah, ai foi um choque. Até hoje eu não vou me esquecer da cara de tristeza dos meus pais, coitados, bicho! Espero um dia ainda orgulhar um aqui na terra e o outro lá no céu… Mostrar que a escolha estava certa.

<<voltar à página de conteúdo

Anúncios

7 Respostas para “entrevista

  1. Pingback: Apresentação «

  2. Tara Nativista é o caralho! Taranatiriça é o nome da banda ! Pô, mais respeito com a história do rock gaúcho…

  3. Pingback: Júlio Reny continua nas ruas de Porto Alegre « bruno bandido

  4. Pessoal baita entrevista, legal ler agora que o Julio ta lançando o disco que ele tava começando a um ano atrás.
    Coloquei uma parte do texo no meu blog, deem uma olhada!
    Abraços

  5. Sim. E é bacana esse disco, né?
    Mas eu preferia o nome completo que ele tinha pensado.
    Abraço. Vou lá ver sim.

  6. Pingback: Expresso Oriente « bruno bandido

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s