entrevista – Paulão

Era início de julho quando a banda Velhas Virgens veio fazer o segundo show da mesma turnê aqui em Porto Alegre. Já com a ideia de revitalizar o Língua Pop, mandei um e-mail para o vocalista da banda, o Paulão, solicitando uma entrevista – ao vivo e com bebida, porque é assim que a gente entrevista as pessoas.

A banda vai beberPaulão na Toca da Coruja na cervejaria Toca da Coruja, pinta lá antes do show. Foi sua resposta.

Por supuesto, uma cervejaria.

Mais tarde, aliás, em um show que lotou o Opinião, eu via em palco uma espécie de semi-deus da cerveja ritmado por um grande grupo de rock’n roll. Um profeta da cevada, ou, se acham que é forçar a barra, apenas um cara que sabe nitidamente a importância que a bebida teve em sua vida e trata de respeitá-la todos os dias, além de dar valor ao lado divertido dela.

Segue abaixo, um trôpego registro de uma conversa de quase duas horas, onde Paulão fala sobre a turnê atual, literatura, emocore, samba, o papel da cerveja em sua vida e outras putarias mais.

bruno bandido – Cês tocam bastante no sul. O que tu acha dos shows que fazem aqui?

PAULÃO – O Rio Grande do Sul é um lugar muito louco pra tocar rock’n roll. Acho que porque a gente tá afastado daquelas tendências tropicais do nordeste… Tá mais pelo frio, mais próximo da Argentina, onde a música popular é o rock. O pessoal daqui me parece mais selvagem.

bb – Bem, e essa turnê é a do Ninguém beija como as Lébicas, é o disco mais conceitual de vocês?

PAULÃO – Então, cara, a gente resolveu fazer uma parada meio que uma Ópera Punk, É a história de um gênio da garrafa, que é o Genelvis, as músicas têm uma sequencia e é um disco conceitual. Tem um libreto pra baixar no site, que é pra acompanhar o disco e na turnê a gente tá tocando sete ou oito músicas dele.

bb – Oito? É música pra caralho.

PAULÃO – Sim, é a maior quantidade de músicas que a gente já tocou em turnê de disco novo. O pessoal tá cantando junto. É bom porque mantém uma certa temática.

bb – Sim. É raro que as bandas toquem tanta música nova assim em turnê.

PAULÃO – Aham, os caras tocam três musicas. Olha o AC DC, por exemplo, na turnê do disco novo tem duas músicas dele.

bb – E, na minha opinião, esse é um dos melhores discos de vocês. Até as letras me parecem mais refinadas. Não dá pra dizer refinadas, mas…

PAULÃO – Maduras.

bb – É, talvez.

PAULÃO – O fato de ser uma coisa conceitual nos levou a ter que contar histórias. Essa balada, por exemplo, “A última partida de bilhar”, a gente não colocaria em outros discos porque, geralmente, a gente só quer falar de putaria, de festa… Mas acabou que ela tinha tudo a ver com a história. Talvez isso tenha feito com que os temas fossem mais variados, não fosse só farra. E deu tão certo essa idéia do livreto, de acompanhar uma história, que tô até pensando em trabalhar mais com essa onda.

bb – Eu sei que tu tem uns livros engavetados aí.

PAULÃO – Na verdade eu tenho um livro, que tô revisando, e espero lançar ainda esse ano. Ele tá quase pronto e se chama Na terra das mulheres sem bunda. É uma viagem que eu fiz com a minha mulher dois anos pela Europa. De certa forma, é um roteiro do que fiz lá e, ao mesmo tempo, vou misturando com coisas que eu gosto, vou levando insinuações da minha vida, memórias com meu trabalho de televisão, de show, e encontrando “fantasmas” do Jimi Hendrix, do John Lennon, que são sósias, mas não são… É um negócio meio fantástico nesse ponto de vista. Mas é basicamente um romance estradeiro.

bb – Bacana. E tem outro livro ainda né?

PAULÃO – Sim, um que eu escrevi há anos e é muita viagem. Teria que revisar muito e se chamaria A última noite da minha juventude.

bb – Tu escreve desde cedo, então?

PAULÃO – É, eu ia fazer faculdade de jornalismo, aí entrei pra Rádio e TV – Exatamente o que eu queria porque tenho facilidade de escrever o que é pra ser falado. Então, escrevo pra tv e rádio no meu trampo em São Paulo. E escrevo poemas e letras de músicas que não são pra Velhas Virgens. Tem um livro que eu gostaria de lançar que é uma antologia de letras não musicadas…

bb – E o que tu gosta de ler?

PAULÃO – Porra bicho, eu tô lendo um livro sobre o Keith Richards. O que Keith Richards faria no seu lugar. Esse eu tô em andamento. Esse ano eu li O símbolo perdido do Dan Brown, li um do Anthony Bourdain, Cozinha Confidencial, li a biografia do Adoniran Barbosa, que é um livro sensacional e gosto muito do Andre Vianco, que é um brasileiro.

bb – Que escreve sobre vampiros, tô ligado.

PAULÃO – Sim! Esses dias tive a oportunidade de beber com ele, do caralho! Ele tá produzindo uma adaptação pro cinema, ou pra tv, dos livros dele e eu disse pra ele botar uma banda vampírica lá, pra gente fazer um trilha sonora… E, deixa eu ver o que mais que eu leio. Sei lá, tem O Nome da Rosa, que me marcou, O anjo pornográfico do Ruy de Castro sobre o Nelson Rodrigues, Augusto dos Anjos

(Nesse momento, um cara de trinta e poucos anos aborda Paulão)

– E aí Paulão!

PAULÃO – E aí, cara.

– Não lembra de mim né? Dois anos trás a gente ficou na frente daquele hotel.

PAULÃO
– Porra bicho, como assim “a gente ficou”, os caras tão gravando aí.

– Tinha aquela loira, não lembra?

PAULÃO – Ah bom, se tinha uma loira! Mas fica por aqui, cara, tô dando uma entrevista, depois a gente conversa e bebe uma cerveja…

– Pode crer!

PAULÃO – Desculpaí, onde a gente tava?

bb – Sei lá. Vâmo falar dessa história da independência

PAULÃO – Cara, a independência não é nada do tipo “a gente se recusa a entrar na sociedade…” A sociedade nunca quis a gente. E a gente não vai ficar chorando na calçada. O Cavalo abriu o site, abriu uma gravadora e a gente montou uma estrutura pra gravar e divulgar nossos discos. Mas a gente não tem nada contra alguém que tenha uma estrutura boa, baseada em gravadora. O que a gente tem contra é que alguém meta o dedo no nosso trabalho. A gente quer liberdade.

bb – E, porra, do jeito que andam as coisas, seria um bocado estranho se a sociedade quisesse vocês.

PAULÃO – É… Não sei, de repente um dia alguém acha que a gente possa dar dinheiro. Se alguém chegasse e dissesse pra gente: “Olha, a gente tem uma gravadora, tem dinheiro pra dar uma estrutura pra vocês e podem fazer o que vocês quiserem”. A gente entraria na hora. É a mesma coisa que jogar no Caxias e um dia o Barcelona querer te contratar. De dinheiro todo mundo gosta, todo mundo quer mostrar mais o trabalho. A gente não ignora o sistema, ele que nos ignora, então, caguei pro sistema.

bb – Mas a Velhas Virgens conseguiu montar uma estrutura bacana. Dessas bandas de blues que tem hoje no Brasil, Blues Etílicos, Bêbados Habilidosos… Eles nunca vêm pra cá, por exemplo. Até o Celso Blues Boy toca lá pra cima toda hora e pouco vem pra cá. Por que tu acha que vocês conseguem se expandir mais? É pelo tipo de show, de letra, ou interesse mesmo?

PAULÃO – Grande “Bêbados Habilidosos”! Vou contar sobre os caras porque sou muito amigo deles. Já levei pra tocar lá em São Paulo, ficaram tudo no meu apartamento, onze neguinhos espremidos no meu apartamento, parecia um albergue. Mas foi pra dar força pro trabalho dos caras, que é muito bom. O Fábio Brum, que era o guitarrista na época…

bb – Da Saco de Ratos?

PAULÃO – Isso, e da Made in Brazil. A opção dele era ir morar em São Paulo, aí ele arrumou um esquema e foi. Mas o Renato Fernandes, que é o vocalista, se recusa a sair de lá. É muito difícil manter uma banda em turnê morando em Campo Grande. Se quer aparecer, tem que ir pra São Paulo, ir pro Rio de Janeiro

bb – Sim, as bandas do sul também não conseguem se não forem pra lá.

PAULÃO – É. Os caras da Cachorro Grande moram lá, por exemplo, ou moraram, sei lá. Tem que ir pra SP. Não é bairrismo não, é que fica mais fácil. Tem que ficar perto dos aeroportos, perto de onde tem muito show. É assim, não fui eu que inventei essa regra.

bb – Tu tem um projeto que o Fábio Brum participa, né? Cuelho de Alice

PAULÃO – Cuelho de Alice é um projeto meu com o Fábio Haddad e com o Neto Botelho. A gente gravou o disco, só que eles não quiseram sair tocando. Daí recrutei duas pessoas, o Rocha, que era até aluno do Neto Botelho, na bateria, e o Fábio Brum. Ele não era, exatamente, o guitarrista que eu queria pressa banda. Eu queria um guitarrista barulhento e o Brum é mais de blues, rock’n roll, Eric Clapton, Jeff Beck, aquela coisa… Só que aí o cara é um puta amigo, um puta guitarrista, e por algum tempo a gente conseguiu acertar e fazer junto – Só que conciliar com a agenda da Velhas Virgens é complicado e a gente acabou parando.

bb – Não pensa em fazer nada novo com a banda?

PAULÃO – Penso. Eu tenho o projeto de fazer o segundo disco da Cuelho de Alice, que tem a ver com o livro Na terra das mulheres sem bunda. Quero fazer algo temático, falando das dez cidades que eu visitei. E quero fazer misturando mais linguagem de música brasileira – batuque, ciranda e o caralho – com metal.

bb – O primeiro já mistura, né bicho…

PAULÃO – Mistura, mas eu quero ir mais além. Falar em portuñol, bad english, no french. Quero usar essa língua da Europa, porque as pessoas falam assim lá. Cê vai na Itália, italiano falando espanhol é um espanhol macarrônico. Fala-se um inglês podre em toda parte. Quero fazer um disco de imigrante que fala mal a língua. “I like to say to you, but I’m here in Madrid…”, uma coisa assim. No conteúdo das letras, falar do roteiro que fiz lá, as cidades, estações de metrô…

bb – Quando tu pretende fazer isso?

PAULÃO – Eu preciso de tempo pra isso, é difícil, até porque minha mulher tá grávida de sete meses.

bb – Parabéns.

PAULÃO – Obrigado. Então, tive que dar um tempo com os projetos porque ser pai dá trabalho. Mas minha meta é ano que vem lançar esse disco novo da Cuelho… porque o que eu quero mesmo é tocar na Europa. Não quero grande estrutura nem nada, tô pensando em tocar em buraco por lá. Quero ter a experiência de ir pra Europa e tomar um pouco do dinheiro deles, porque eles tomaram muito do meu quando fui pra lá. (risos)

bb – Tu não costuma fazer parceria em letras, né? No Ninguém Beija Como as Lésbicas tem a Bortolotto Blues, é uma parceria tua com o Mário Bortolotto?

PAULÃO – Eu tenho umas duas letras baseada em coisas do Mário. Essa daí é um papo que tive com ele. O cara participa da gravação, mas foi um papo recolhido da mesa de bar. Ele falou o seguinte, “Paulão, não traio minha mulher porque dá muito trabalho.” Aí escrevi sobre isso. E eu fiz uma outra música, sobre um texto que ele colocou no blog dele (leia o texto, chamado Meus problemas com a bebida, nessa mesma edição do Língua Pop), que é algo mais ou menos assim: Cê tá andando com a mulher no mercado e ela tá caminhando daquele jeito com a pontinha do pé e dizendo “Ai, cê só pega bebida”, dizendo que cê tem problema com a bebida. Aí o refrão é “Eu não tenho problemas com a bebida, meu bem/ Eu tenho problemas com você”. (risos)

bb – Aliás, a boêmia faz parte da temática de Ninguém beija como as Lésbicas. Essa coisa de viver dentro da garrafa…

PAULÃO – É, essa história de “dentro da garrafa” é um jeito metafórico de dizer o quanto a bebida pode ser legal. Legal, que eu digo, é o lado divertido das pessoas. Eu me sentia um bosta quando era adolescente, eu não era bonito, não jogava nenhum esporte bem, não tinha grana, a única coisa que eu fazia de importante era beber. Então a cerveja me salvou de ser um fracasso. É uma coisa que eu tenho que agradecer todos os dias. Tenho medo de um dia ter que parar de beber porque já bebi demais, mas isso pode acontecer – Continuo exaltando esse lado divertido da bebida.


bb – Não quer ter a última partida de bilhar…

PAULÃO – Então, bicho, a minha mulher me alertou que essa música, na verdade, é sobre uma despedida de solteiro. E ela tem uma imagem ali, que é o sujeito sentado com uma puta em cada perna. Isso aconteceu comigo em 1999, quando a minha mulher ainda era minha namorada e foi morar em Brasília e a gente se separou. Eu tava nesse esquema – ficava até às sete da manhã na zona e me lembro exatamente dessa cena. Eu sentado num cruzamento, na boca do lixo lá em SP, com uma puta em cada perna segurando uma cerveja e uma caipirinha (uma em cada mão) – E os carros passando ali, sabe? O pessoal indo trabalhar e eu todo zoado.

bb – Tu já trabalhava em TV nessa época?

PAULÃO – Trabalhava na Record. Saía do puteiro às sete, oito da manhã, ia pra casa, tomava um banho e ia trampar… E é isso aí,velho, “A última partida de bilhar” é uma música triste, não é?

bb – É triste pra burro. E bonita também. Linda balada.

PAULÃO – Linda balada! E ela caiu bem pra caralho no disco. Quem sabe ela aponte prum novo sentido nas músicas da Velhas Virgens. Não vâmo parar de falar de putaria, é claro, mas tem aquela diferença que cê perguntou lá no início, talvez, falar de putaria de um jeito mais triste, mais nostálgico…

bb – Vocês ainda sofrem aporrinhação por falar dessas putarias?

PAULÃO – Sofremos, é lógico. Não nas grandes cidades, necessariamente. Até tem neguinho que acha que a gente só fala putaria e não conhece o nosso trabalho. Mas, quando tocamos pelo interior, muitas vezes somos censurados. As rádios botam aqueles apitos do tipo “Tem show da banda Velhas piii”. (risos) Ou acontece da delegada mandar tirar o nosso logotipo, que são só aquelas garrafas transando, da porta do lugar. Tem muito cuzão ainda. Tem muita gente que acha que oprimindo, escondendo, você liberta as pessoas, que não acha legal falar de sexo, embora seja algo comum. Ainda mais nesse momento em que o rock brasileiro tá muito ligado nessa coisa de emo.

bb – Paulo Carvalho, disserte sobre os emos:

PAULÃO – Porra, emocore né? Uma coisa que vem do hardcore, que é a onda mais pauleira do punk. Como é que transformaram isso em chororô? É muito chororô demais. Aquele negócio de “ah, porque eu te amo…” Essa gente ama demais, cara. Essa gente tem que torcer por futebol, beber, mandar tomá no cu, sair com os amigos, ir ao cinema, não é amor e só. E os emos tão nessa onda. Eu acho melhor você ouvir rock’n roll do que sertanejo ruim. Mas o conceito do rock não tá só nas guitarras distorcidas. Também tem que ter atitude.

bb – Falando em atitude sem guitarras distorcidas, tu é mó fã de Adoniram Barbosa. Cês tem um projeto de tocar só músicas dele, né?

PAULÃO – Adoniram é puro rock’n roll. Ele é pré-rock’n roll, na verdade. Adoniram é um outsider, cara – E como a influência é muito grande, a gente adaptou algumas canções dele pro rock e vamos lançar no final do ano o Carnavelhas II. Que é um disco pra nossa cidade e pro Adoniram. Ele é um dos melhores sambistas de SP e, na minha opinião, um dos melhores do Brasil. E as escolas de samba da cidade esqueceram o centenário do cara. Se a gente for tocar algo dele, hoje, no bis, eu vou falar: “Coube a essa banda de garagem podre lembrar o maior sambista de São Paulo, porque as escolas de samba esqueceram.”

bb – E que outros sambistas tu curte?

PAULÃO – Nossa! Noel Rosa, Zeca Pagodinho, Chico Buarque – apesar de não ser sambista – Moreira da Silva, Bezerra da Silva. O pessoal da velha guarda…

bb Cartola, Nelson Cavaquinho

PAULÃO – Isso. Como é mesmo o nome daquele que é daqui?

bb – Lupicínio.

PAULÃO Lupicínio Rodrigues! Tem um monte. Essa gente escrevia coisa boa. E no rock’n roll, pra mim, os melhores letristas são o Cazuza e o Renato Russo. Mais o Cazuza, porque tem mais a ver com nossos temas. Aí de 90 pra cá tem muito papo furado, né? Sinceramente, não entendo as letras do Skank. Acho que as músicas são ótimas, bonitas, melódicas, mas não entendo. Não entendo o que a Pitty fala. E essas bandas emo aí também não entendo. Talvez é porque eu seja velho, tô com 44.

Muitos copos de cerveja, e alguns minutos inaudíveis no gravador, depois:

PAULÃO – Vou te falar, cara. Eu gosto de Kiss, gosto de glam rock, sempre gostei. E a gente sempre curtiu esse lance de visuais. Eu sempre criei personagens pro show. Nos últimos anos teve o pirata, meio Jack Sparrow, que era o Virgulino Sparrow. E eu tinha esse personagem, na minha cabeça, que era o gênio da garrafa. E aí rolou essa ideia dos desejos, que tá na música que abre o cd. Que manda esses politicamente corretos tomarem no cu. Eles têm um desejo e dizem “Ah, eu quero salvar a Amazônia”. Porra, vão se foder. Não tenho nada contra quem quer cuidar da natureza. Mas tenho contra neguinho que transforma isso em pregação. Aquela história, “vá ao teatro, mas não me convide.” Teatro é um negócio que eu acho chato também, só gosto das peças do Mário Bortolotto. Enfim, essa história do gênio e do “dentro da garrafa”. Tem muita gente querendo consertar o mundo, mas a gente tá aqui lembrando que pode deixar ele um pouco mais errado, que isso é que dá sabor. A gente vive numa época de muito legislador, muito pastor e o caralho querendo dar lição de moral, mas eu acho que o bar é o lugar mais puro que tem. Se Jesus tivesse na terra, acho que ele gostaria de tá no bar bebendo uma com a gente do que na companhia desses babacas de qualquer religião. É muito mais puro, entende?

bb – Tem uma frase do Bukowski que é “se quiser saber onde tá Deus, pergunte a um bêbado.”

PAULÃO – Ô! O Bukowski também é uma referência minha. Me interessa pra caralho. A minha principal influência do Bukowski é aquele filme com o Mickey Rourke

bbBarfly.

PAULÃO – É. Tem uma coisa que é do caralho. Quando a mulher fala “Ah, você só passa bebendo o dia inteiro.” E ele diz “É difícil ser um bêbado. Você pode ser um bêbado por um dia ou dois, mas ser bêbado todo dia não é pra qualquer um.”

bb – Não é mesmo… Paulão, tu trabalha no SBT, tem os compromissos com a banda, tem família, como é que é?

PAULÃO – Ah, não dá pra passar todos dias no bar, né cara. Tenho que administrar minha vida. Às vezes as pessoas pensam que é só putaria, mas não é não. Eu trabalho, é um horário corrido. Vou pro SBT, chego em casa dez horas da noite e, às vezes, às onze tenho que sair pra tocar. Também tenho mulher. Mulher cobra presença. Minha filha vai cobrar mais ainda.

bb – E ainda queria ir pro CQTeste.

Paulão – CQ Teste não. CQC.

bb – Isso.

PAULÃO – Essa é uma meta que tenho pra minha vida. Agora, tô com um projeto na mão do pessoal do SBT, o República da Madrugada. E é minha pretensão agora, ir pra frente das câmeras. Até acho que se der certo vai sobrar mais tempo pra mim. Porque aí eu largo essa história de escrever pra Domingo Legal. Se bem que eu gosto do Domingo Legal, cara. Pra mim, Domingo Legal e SBT são correspondentes às Velhas Virgens da televisão. Porque é uma putaria que se leva a sério, mas não é pretensamente intelectual, como as tvs educativas. Não é bonitinho como é a MTV, não é o número um como a Globo, não é evangélico que nem não sei o que, então, é normal, sabe? Cê vai lá, faz o teu trampo e vai embora. Eu acho que o SBT é muito a cara do Brasil, uma cara meio sonsa, meio inocente.

bb – E eles te dão liberdade, né?

PAULÃO – Ah, dão liberdade porque agora eu já conheço todo mundo. Eles sabem que meu trabalho é uma coisa séria.

bb – Aí que tá. Tu não é um completo maldito.

PAULÃO – Sou meio que um ruído dentro do sistema. Trabalho no sistema. Toco Rock’n Roll – a gente meio que sobrevive sem força da mídia. Não ando com traficante, não fui preso nem nunca bati nem matei mulher no sítio.

Depois daí, devido a citação ao Bruno, aquele goleiro muito mais bandido e covarde do que eu, conversamos sobre futebol. Era época de Copa do Mundo e Paulão reclamou muito do Dunga , embora não abrisse mão de torcer pela seleção canarinho. (No dia seguinte, o Brasil foi eliminado pela Holanda). Me xingou porque eu torcia pela Argentina, falou que o Corinthians é o amor de sua vida, levantou a camiseta e mostrou a tatuagem da flâmula do time no peito. Eu disse que era colorado e me chamou de chorão (isso devido ao fato de saber que o campeonato brasileiro de 2005 foi comprado e roubado por eles e sentir, no mínimo, vergonha por isso. Suponho.) Fala isso mas vai ter que torcer pra gente agora, eu disse, ou quer que o São Paulo ganhe a Libertadores? Ah é, agora eu sou colorado desde criancinha, foi sua resposta. (Um mês depois, o Inter, desacreditado naquela época, seria bicampeão da Taça Libertadores da América. O torneio mais importante do continente americano, que o Corinthians ainda não tem.)


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2 Respostas para “entrevista – Paulão

  1. Haha.
    Entrevista à parte: “Um mês depois, o Inter, desacreditado naquela época, seria bicampeão da Taça Libertadores da América. O torneio mais importante do continente americano, que o Corinthians ainda não tem”.
    Muito bom!

  2. O tempo, Colorados, não pára!Domingo a gente ganha de vcs no baira Rio…de novo!Abrax

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