apresentação

No dia 18 de agosto de 2010, o Língua Pop completou um ano com a marca de DUAS edições – as duas em 2009. Foram excelentes edição com grandes entrevistas (Julio Reny e Pablo Beato).

Em julho deste ano, achamos que seria engraçado fazer a edição comemorativa de um ano da bagaça. Acontece que a gente é tão fudido que até isso a gente atrasou. No dia 18 de agosto vimos o Sport Club Internacional ser bicampeão da Libertadores e, como bons colorados e panacas que somos, entramos numa imensa ressaca de qualquer coisa que o valha. E isso é só uma das nossas milhões de desculpas.

Tudo bem, nunca fomos amigos da periodicidade e jamais prometemos nada parecido com isso. Nossa única proposta, enquanto editores do Língua Pop, é a de não se levar a sério – o que, modéstia parte, fazemos muito bem.

Claro que não seria por isso que deixaríamos de comemorar esse aniversário. Tomamos alguns porres, pedimos textos pras pessoas que a gente curte, produzimos uma ou duas coisas e preparamos uma entrevista com o semi-deus da cerveja, Paulão; mandamos nosso repórter, Thiago Couto, com todo o seu happy journalism, para um hipódromo apostar nos cavalinhos; catamos um texto antigo do escritor e comunicador Leo Felipe – onde ele dá a dica de onde você pode encontrar drogas na literatura (drogas no sentido de substâncias químicas, não de livros de vampiros que casam virgens); e formamos um quadro chamado Abordagem Laxativa (expressão levantada pelo mestre Bukowski, que ninguém parece saber direito o que significa e, é claro, não vamos explicar nossa interpretação sobre ela) onde fizemos 5 perguntas para Lobão e outras 5 para o escritor Marcelo Mirisola.

Além disso, você vai encontrar textos, contos, ou poemas de Helena Hutz, Mário Bortolotto, ricardo ara e bruno bandido.

Se quiser baixar a edição em pdf, p/ ler com calma em seu computador, clique aqui.

Bem vindos a mais uma edição do Língua Pop – um ano de literatura e jornalismo antiquado e irresponsável, guapo y  gaucho, y  algunas veces, en portuñol. (en la proxima edicion – Língua Pop/En Memoria de Pablo Beato – teremos grand cantidad de conteúdo sobre el uruguay y sobre el español selvajen de los gauchos y gauches borrachos)

Buena o mala suerte, comancheros. Hasta la pruexima, puerra.

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dicas

A FARMÁCIA NA PRATELEIRA
por Leo Felipe

(A velharia abaixo tem uns bons (& velhos) 10 ou 11 anos. Não sei por que razão foi escrita, mas sei de onde veio a inspiração: do livro The Rolling Stone Book of The Beats, uma seleção de artigos, textos ficcionais e entrevistas sobre a Geração Beat, publicados nos últimos 40 anos na prestigiada revista . Baita livro. Lá no meio, tinha esse Key Works of Beat Drug Literature, uma lista compilada pelo escritor Michael Horowitz com as obras fundamentais da literatura Beat e as drogas nelas presentes.)

Percebo que durante a adolescência estava muito mais interessado em drogas do que em sexo (se bem que com uma quantidade daquelas de química no corpo até o Michael Douglas ficaria blasé). As sessões eram, na maioria das vezes, nos finais de semana, em casa. Um grupo seleto experimentava de tudo um pouco (ou muito): maconha, haxixe, anfetamina, ácido, lança, cheirinho, benzina, cocaína, heroína, hipofagin, dualid, inibex, artane, tylex, elixir paregórico, chá de cogumelo, chá de cartuxo, dama-da-noite, nós moscada e até café. Em quantidades cavalares. Com borra e tudo. Tinha o nome besta de Café Árabe.

O procedimento era pedagógico pra caramba. Super-embasado, com toda uma literatura por trás. Livros que, se não nos abriam as portas da percepção, nos faziam ao menos bater à do traficante mais próximo. Tudo culpa do proselitismo lisérgico do Timothy Leary e da prosa alienígena do Burroughs. Alguém aí falou em apologia?

Aqui vão alguns livros que fizeram as nossas cabeças:

“Confissões de um Comedor de Ópio” (1821) / Thomas de Quincey
Láudano (tintura alcoólica de ópio)

“O Clube dos Haxixins” (1831) / Théophile Gautier
Haxixe, ópio

“Ópio – Diário de uma Desintoxicação” (1930) / Jean Cocteau
Ópio

“Haxixe” (1940) / Walter Benjamin
Haxixe

“Junky” (1953) / William Burroughs
Heroína/cocaína/maconha/anfetamia/benzedrina/barbitúricos e outras drogas

“As Portas da Percepção” (1954) / Aldous Huxley
Mescalina

“Uivo e outros poemas” (1956/1960) / Allen Ginsberg
Maconha/alucinógenos e outras drogas

“On The Road” (1957) / Jack Kerouac
Maconha/benzedrina

“Os Subterrâneos” (1958) / Jack Kerouac
Maconha/anfetamina

“Almoço Nu” (1959) / William Burroughs
Heroína/cocaína/maconha/anfetamia/benzedrina/barbitúricos e outras drogas

“Cartas do Yage” (1963) / William Burroughs e Allen Ginsberg
Ayauasca

“O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” (1966) / Tom Wolf
LSD/maconha/anfetamina e outras drogas

“Flashbacks” (1984) / Timothy Leary
LSD/psilocibina e outras drogas

*Leo Felipe já abandonou a literatura acerca das drogas assim como as próprias. Não bebe, não fuma, não cheira e só lê publicações acadêmicas.

produção – texto

SABE QUAL É A VERDADE?
por Helena Hutz

Ele até que era gatinho, aquela coisa, homem com cara de homem, homem que parece com homem, homem que se afirmava como homem, enfim, homem. E eu só tava nas ondas de conseguir respirar mais um dia, conseguir ao menos andar sem cair no primeiro passo, conseguir mijar sem levar injeções na bunda, conseguir cagar sem enfiar um tubo no rabo, conseguir suportar a febre, os bocejos, os calafrios, a vontade incessante de uma ida ao Largo da Batata e uma passada rápida a uma farmácia qualquer. Ele chegou assim – não lembro – chegou assim e se tornou meu pai, meu coronel, meu senhor em poucos dias. E eu só tava na onda de obedecer e não precisar pensar sozinha e não precisar processar dados sozinha e dizer a ele que era tudo por ele, graças a ele, um ode a ele.

Sonhei com você, eu disse. Sonhei com seu pau.
“Gostoso”…
(sonhei com um treco verde saindo do pau dele)

Sonhei com você de novo, eu disse. Sonhei muito com você.
“Linda”…
(sonhei que ele eram 3, sendo o meu, um dos 3, com dupla personalidade )

Sonhei com você mais uma vez, disse. Sonhei com você aqui em casa.
“Eu vou”…
(sonhei que ele subia o prédio pela varanda, me matava enquanto eu dormia)

É, ele até que metia gostoso e era gatinho e era homem de verdade e tinha cara de homem de verdade e dizia o tempo todo “você vai virar a minha mulher, uma mulher com jeito de mulher, mulher que se arruma:

faça as unhas duas vezes por semana, corte o cabelo a cada 2 meses, se embeleze, use roupas mais femininas, elabore desenhos na xoxota, tome banho a cada mijada /nunca fale mijada/ se porte como uma dama na mesa – refaça as unhas se alguma lascar, corte o cabelo no dia se assim eu ordenar, não se embeleze se a noite pedir, use a coleira que comprei pra nós dois, deixe crescer tudo na xoxota, sempre tome banho a cada mijada /e tapa na cara porque você disse mijada/ venha engatinhando e espere ajoelhada ao lado da mesa

que você é tudo pra mim – você é minha e somente minha, que sua alma e corpo agora são meus. E eu só tava na onda do venha em casa e mostre que você mete gostoso e meta como homem e vá embora sem deixar pegada, rastro e cheiro algum – que sou sua o caralho – e falo sim caralho – não me molde… da sua, sempre sua!

Por que qualé a verdade? Assim:

Meu inconsciente sabe qualé a verdade?
Sabe que essa realidade distorcida toda não passa de mera ilusão?
Que na verdade ele sempre foi 3, 4, 5?
Que isso aqui que vejo e escuto e observo não é, de fato, a verdade?
Que o que sonho é o que verdadeiramente sinto e quero e penso sobre um homem de verdade? Sobre aquele que eu pensava ser homem de verdade?

Sabe qualé a verdade? Se souber, por favor, não me escreva, como te dizer, assim, não me escreva dizendo que por mim você encontrou a verdade.

matéria – Couto vai ao hipódromo

Thiago Couto, mais do que um assíduo colaborador  e fotógrafo do Língua Pop, é um personagem do nosso imaginário alcóolico-jornalístico. O único personagem feliz e simpático, diga-se de passagem.  Gostamos de mandá-lo a lugares pra fazer reportagens. Foi assim na primeira edição com “Couto vai à Marcha da Maconha. “Couto vai” já virou quase uma sessão do Língua Pop, uma sessão cheia da simpatia que a gente não tem.  Nas epróximas dições, pensamos em Couto vai ao presídio e, em dezembro, Couto vai ao acampamento de férias. Aí sim, só faltará a África pra todos os lugares em que o Ernest (Jim Varney) foi naqueles filmes antigos da Sessão da Tarde.

Acontece que quando foi designado a fazer esta pauta para a redação de uma revista da sua faculdade, não teve a mínima vontade de seguir em frente. Claro que não. O hipódromo, afinal, é um lugar para machos. Pra  velhos carrancudos anti-sociais e perdedores se esconderem do mundo lá fora. Como seria um texto do Couto não muito feliz? Nós pensamos. A simpatia dele caberia lá dentro? Abaixo está o resultado. Um pouco menos feliz, mas, ainda, muito simpático.

clique para ler a matéria

produção – piada interna

E POP VAMP NÃO BRIGOU COM SYLVIA PLATH
por bruno bandido

A vampirinha me discou
tédio no império dos
caninos tímidos
A televisão como fogueira
estralando um mute & Malcon
McDowell trepando estantes com
aliterações de fausto fawcet
– singing in
……..
the rain
ficou pra hora de siesta
dalton escovando os molares
olé p/ diana caçadora
A vampirinha me discou
intimou a eminência
depois de passar a tarde
no cinema mudo
colecionando olhares de
louise brooks
Como se não houvesse sangue
no ponto g
ela sabe
– todas as calcinhas são
comestíveis
pra quem tem peito

abordagem laxativa – lobão e marcelo mirisola

Abordagem Laxativa é o nome de uma revista editada pelo personagem Henry Chinaski, no livro Mulheres, de Charles Bukowski. O Língua Pop pegou esse nome para uma espécie de sessão onde ricardo ara coloca cinco questões para cada entrevistado, seja ela música, escritor, ou o escambau.

Nessa edição, os entrevistados são o músico Lobão e o escritor Marcelo Mirisola.

clique aqui para ler

produção – texto

ALGUÉM AINDA FODE COA GENTE, AS DROGAS OU OS DESENCONTROS
por ricardo ara

acho que fazia uns cinco minutos que eu tava ali, chupando e masturbando aquela boceta e nada do meu pau subir. Só pode ser essa droga que já vem malhada muito antes de qualquer coisa acontecer. é melhor eu acreditar nisso

olha só, não ta rolando. esse pó fudeu comigo

ah não, vai ter que dar um jeito

que jeito porra? Só amanha, quando a bucha acabar e a gente acordar

nem pensar

e ai ela pegou um creme que passava sempre depois do banho e besuntou meu caralho com aquilo. Massageava toda a extensão do meu pau, as bolas, e, safada como era, passava um pouco no meu cu. Ela sempre tenta enfiar o dedo no meu rabo enquanto a gente fode. Descobri com um amigo que ela tenta fazer isso com todos, ou pelo menos sempre coa gente. Mas não querida, no meu rabo não.

to te falando, nem isso vai adiantar. É melhor a gente sair e tomar umas cervejas do que ficar aqui tentando levantar essa porra

puta que pariu! Amanhã tu vai ter que dar um jeito nisso, se não já eras pra nós

amanhã baby, amanhã sempre se dá um jeito

e ela levantou e sentou na minha cara.

te vira com a boca por hoje

foi a única coisa que pude fazer.

já tava na merda mesmo então resolvi acabar com o resto de septo que tenho no nariz. Eram três da manhã quando decidimos entrar numa festa que acontecia no lado do bar. Não fazia a mínima ideia do que tava rolando lá dentro,  mas era entrar naquela casa preta, molhada, com o suor que escorria pelas paredes num dos dias mais quentes da cidade e deixar o efeito passar. Pelo menos assim, naquela noite, teria entrado num buraco escuro e molhadinho.

tava insuportável aquele lugar. Eu tinha uns vinte reais no bolso e torrei tudo em cerveja pra ver se o calor diminuía. Muito pelo contrário, a garota do bar só esquentava com as trovas que me passava enquanto descia mais uma. Mas é sempre assim: bebo duas garrafas, vou três vezes ao banheiro. Devo ter um problema de bexiga que não retém o líquido, ou a minha é menor que as normais, sei lá. Foda é que toda vez que ia mijar segurava aquele caralho mole e cheio de creme e só pensava que não podia falar com a  garota do bar se não nunca mais teria alguma chance qualquer, não naquela noite.

acabou o dinheiro, a cocaína e meu saco praquele calor todo. Sai sozinho daquele lugar. A garota do creme deve ter ficado puta com a minha incapacidade de foder  e sumiu na multidão. Ela tinha uma chave do apê, não iria correr atrás. Antes ainda encontro uns camaradas que me convidam pra uma última partida de bilhar, não vou dizer não para os amigos.

e  a noite, foda?

foda, foda, muito foda

comeu alguém?

bem que tentei

como assim?

essas drogas né velho

caralho meu, isso vai foder contigo

acho muito difícil isso me foder, muito difícil

acabou as fichas, as moedas e qualquer coisa que te mantém na madrugada até o dia dar as caras. Fui pra casa, tentar dormir era o que restava. Não foi tão difícil, tirei a roupa e capotei na cama.

acordo no outro dia de pau duro, louco pra mijar. Olho pro lado e garota não tá na cama. Deve ser por isso que a gente não da certo. Os desencontros acabam com qualquer coisa.